31/07/2026 | 17:59 | EBC
Assessor de Infantino renuncia em protesto à venda de participações
EBC
Um assessor sênior do presidente da Fifa, Gianni Infantino, renunciou nesta sexta-feira (31) em protesto contra os planos da entidade de vender uma participação na Copa do Mundo, após o futebol europeu ameaçar um boicote e as confederações regionais se unirem em oposição à controversa proposta.

Carlos Cordeiro renunciou com efeito imediato, classificando o plano como “um mau negócio para o futebol”.

Cordeiro, que foi nomeado em 2021 por Infantino para ajudar a moldar o futuro da Fifa, afirmou que o órgão estava “hipotecando o futuro do futebol sem qualquer justificativa convincente”.

“É um mau negócio para as federações membros da Fifa, um mau negócio para o futebol e um mau negócio para o futuro a longo prazo do esporte”, disse Cordeiro em comunicado.

Ex-banqueiro e ex-vice-presidente da Federação de Futebol dos EUA, Cordeiro acrescentou que não teve nenhum envolvimento na proposta e se opôs a ela “de forma inequívoca”.

Apesar da crescente oposição, a Fifa afirmou que “reportagens incorretas da mídia” nesta semana haviam atrapalhado seu processo de consulta, mas que seguiria em frente com a apresentação da proposta às suas 211 federações nacionais de futebol.

“Vamos prosseguir com esse processo de consulta para garantir que cada associação membro tenha a possibilidade de expressar seu voto com base em fatos”, afirmou a entidade em comunicado divulgado no meio da noite europeia.

A Fifa propôs a criação de uma subsidiária de US$20 bilhões, a Fifa Forward Enterprise (FFE), para administrar a Copa do Mundo e seus outros eventos, com uma participação de até 20% a ser oferecida a investidores externos.

A Thrive Eternal, um fundo administrado pela Thrive Capital, fundada por Joshua Kushner, deveria liderar o grupo de investidores proposto, informou a Fifa. Joshua é irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos EUA, Donald Trump.

Infantino concorre à reeleição no ano que vem e o presidente da federação norte-americana de futebol, Victor Montagliani, estaria de olho na presidência da Fifa para desafiá-lo.

Uefa lidera oposição a plano para Copa do Mundo

A confederação europeia de futebol, a Uefa, liderou a ampla oposição à proposta, acusando a Fifa de colocar a “alma” do esporte à venda.

Na quinta-feira, os 55 países membros da Uefa votaram por unanimidade pelo boicote a todos os torneios da Fifa, menos de duas semanas depois que a Espanha foi coroada campeã da Copa do Mundo.

O próximo grande evento da Fifa é a Copa do Mundo Feminina Sub-20, em setembro. A Polônia, país-anfitrião, afirmou na sexta-feira (31) que não havia recebido nenhuma informação sobre a possível desistência de qualquer seleção do torneio.

“Ninguém está vendendo o futebol. Isso não é algo que a Fifa jamais consideraria”, afirmou a Fifa em comunicado divulgado na sexta-feira (31).

“Todos têm o direito de expressar sua oposição e buscar esclarecimentos adicionais, mas nenhuma entidade isolada pode alegar representar todas as 211 federações nacionais do mundo".

"Cada federação deve ter a oportunidade de analisar a proposta e ter voz ativa na definição de seu próprio futuro. Esses são os princípios democráticos da Fifa.”

A Concacaf, confederação da América do Norte, América Central e Caribe, rejeitou a proposta durante uma reunião na quinta-feira, mas o órgão, composto por 41 membros, não seguiu o exemplo da Uefa de ameaçar com um boicote.

A Confederação Asiática de Futebol, que conta com 47 membros, divulgou uma declaração na sexta-feira afirmando que “se solidariza” com a Uefa e a Concacaf, mas também não chegou a ameaçar com um boicote.

A AFC, que historicamente não tem sido uma crítica tão frequente ou veemente da Fifa quanto sua contraparte europeia, questionou a viabilidade da proposta e levantou dúvidas sobre os processos de tomada de decisão da Fifa, em um ataque indireto a Infantino.

Fifa afirma que o processo é democrático

Infantino afirmou, em uma carta a todas as federações membros, que elas receberiam US$40 milhões (R$ 203,6 milhões) cada uma caso concordassem com a proposta da Fifa até 19 de setembro.

Na sexta-feira (31), a Fifa afirmou que não levaria adiante o plano sem o apoio da maioria de suas federações membro.

“Esses princípios sustentam a proposta da FFE: financiamento sem precedentes para o desenvolvimento, propriedade verdadeiramente global das oportunidades comerciais do nosso esporte e plena autodeterminação por meio de um processo democrático para todas as associações-membro”, afirmou a Fifa.

A Uefa, a Concacaf e a AFC, juntas, somam 143 federações, bem mais da metade dos 211 membros da FIFA.

No entanto, nem todos os países membros seguiriam necessariamente a linha de suas confederações.

O presidente da Federação Tcheca de Futebol, David Trunda, disse à Sky Sports que via o “impacto positivo das intenções da Fifa”, enquanto a Federação Mexicana de Futebol afirmou que estudaria a proposta antes de definir sua posição, apesar da rejeição da Concacaf.

* Reportagem adicional de Lucy Thomson, Nick Mulvenney, Kuba Stezycki e Stine Jacobsen
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